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Lançamento da Editora Barcarolla, no dia 8 de outubro, na Livraria Cultura Artes, revela um Dorival Caymmi que vai muito além das fronteiras da praia, da capoeira, do candomblé e do samba de roda. Quebrando esses mitos folclorizantes, emerge um personagem muito mais interessante, moderno, envolvido com o mundo do rádio, da imprensa, da intelectualidade, enfim, com a cultura urbana do seu tempo.
Caymmi sem Folclore
André Domingues
Editora Barcarolla
150 páginas
R$ 25,00
Quando se fala em Dorival Caymmi, personagem absolutamente fundamental da MPB, é comum que se faça uma associação do compositor com imagens do mar, do pescador, das ladeiras de Salvador. Mas será que isso representa a totalidade da obra do baiano? Explorando uma outra linha de pensamento, o crítico e pesquisador André Domingues escreveu "Caymmi sem folclore", livro premiado pelo ProAC-2008, da Secretaria de Estado da Cultura do Estado de São Paulo, que a Editora Barcarolla lança agora em 2009, um ano após a morte do cantor. O lançamento acontece no dia 8 de outubro, às 18h30, na Livraria Cultura Artes (Avenida Paulista, 2.073).
O viés não-folclorizante da obra consiste em mostrar a produção de Caymmi não a partir da capoeira, do candomblé ou do samba de roda, mas do universo do rádio, dos discos, do cinema, enfim, da cultura de massa. Ouvidas com atenção, composições do início da sua carreira, como o samba "O que É que a Baiana Tem?" e a canção-praieira "Noite de Temporal", já indicavam um artista moderno, mais interessado em recriar a Bahia (e o Brasil) numa nova linguagem do que simplesmente em reproduzir um punhado de traços típicos. Seus sambas-canção, compostos a partir de meados dos anos 40, foram ainda mais longe, buscando uma síntese e uma universalização da cultura brasileira. Recriar, sintetizar e universalizar o nacional - três preocupações clássicas do modernismo. E também de Caymmi. Um modernista não-erudito, um modernista de ouvido.
"'Caymmi Sem Folclore' é um título de intencional ambiguidade", revela o pesquisador. Por um lado, recusa aquele romance adocicado, o folclore com 'f' minúsculo que se costuma fazer da história das personalidades marcantes da vida brasileira; por outro, combate a visão folclorizante - com 'f' maiúsculo - de Caymmi, tomado pela crítica como um reflexo imediato do meio em que se criou, tal como se costuma fazer com um mestre de maracatu pernambucano ou um jongueiro do sudeste. Os dois são problemáticos. O primeiro porque falseia os fatos, sob o pretexto de contar a história com "beleza", e o segundo porque, ao tomar Caymmi como um criador folclórico, fatalizado a reproduzir a cultura da terra natal, perde o que há de particular e inovador na sua obra. Mais do que simplesmente refletir a Bahia, Caymmi criou uma Bahia. E criou com tanta habilidade que esta passou muitas vezes como sendo a Bahia essencial, a baianidade em si.
"Dorival Caymmi não foi vítima do seu tempo, nem tampouco um representante de um passado perdido ou de um futuro redentor. Tirados os balangandãs, a rede, a jangada, a boemia, nota-se um artista que, por iniciativa pessoal, aproveitou todos esses símbolos do seu tempo e, naquele mesmo momento, os redimensionou com muita competência, participando ativamente da conformação de um imaginário nacional popular", resume o autor, no capítulo final do livro.
Júlio Pimentel Pinto, professor do Departamento de História da USP e redator do texto de orelha do livro, destaca que "Caymmi sem folclore" é, sobretudo, uma busca da História em sua obra, de um Brasil que assistia à expansão da cultura de massa, da força da propaganda, dos jingles políticos. "Um Brasil cujos meios artísticos e culturais se tornavam mais complexos. Neles, o baiano se aproximou de intelectuais e jornalistas. Enfrentou o ritmo acelerado de trabalho, próprio de um país que queria crescer. Ingressou na indústria cultural - rede bem mais agitada - e atuou anos dentro dela. Ao dar as costas para o mito e procurar o homem, André Domingues percebe um compositor e personagem da música brasileira muito mais interessante do que o clichê acompanhado de água de coco e palmeiras ao vento", afirma.
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Ivani Cardoso - ivanicardoso@lufernandes.com.br
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